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“Eu vou lutar como mulher, como indígena, como jovem e mostrar que eu posso estar e conquistar todos os meus espaços”, afirma jovem do povo Truká

12 Outubro 2020

Joana da Conceição Santos foi uma das participantes do webinário do UNFPA  em celebração Dia Internacional da Menina

Por Guilherme Cruz

Reunir meninas, pessoas jovens e adolescentes de diferentes localidades para refletir a condição de ser menina no Brasil foi o objetivo do webinário realizado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). O evento ocorreu na quarta-feira (07/10), um espaço de discussão criado pelo UNFPA que em todas as semanas aborda assuntos distintos e recebe convidadas/dos para refletir questões sociais em diferentes perspectivas. 

 

Como a perspectiva coletiva e igualitária reafirmada na busca de direitos feita por Vitória Rocha, 14 anos, cigana Calin, estudante e dançarina. “É uma luta constante para meninas conseguirem o seu lugar. Muitas meninas quando passam para adolescência não têm condições para estudar, pois muitas ficam vulneráveis. E para ser independente e poder estudar se torna difícil. Meninas ciganas que não acessam a educação é uma condição que a sociedade nos impõe, de estarmos à margem” disse.    

A fala de Vitória Rocha criou um vínculo com a história e opinião de Joana da Conceição Santos, 14 anos, representante do povo Truká. “A sociedade vira as costas para meninas indígenas, quilombolas e ciganas, não oferecendo oportunidades. Temos que lutar muito para poder nos formar, por exemplo. Eu vou lutar como mulher, como indígena, como jovem, e mostrar que eu posso estar e conquistar todos os meus espaços”. 

Segundo o IBGE, as mulheres trabalham, em média, três horas por semana a mais do que os homens, combinando trabalhos remunerados, afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Mesmo assim, e ainda contando com um nível educacional mais alto, elas ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens. Isso quando ainda conseguem entrar no mercado de trabalho, pois elas precisam dedicar tempo nos cuidados de pessoas e afazeres domésticos, aos quais as mulheres trabalhadoras dedicavam 73% mais horas do que os homens.

Pesquisas, como a desenvolvida pela Plan International, confirmam as diferenças de percepção entre gêneros desde a infância. Na pesquisa, realizada com mais de 1700 meninas de 6 a 14 anos em cinco regiões do Brasil, 37% das meninas acreditam que, na prática, as meninas e os meninos não têm os mesmos direitos. 

“A hipersexualização de meninas está muito enraizada, e isso traz a importância do empoderamento para que meninas possam se cuidar e entender a sua realidade. Dentro de uma sociedade machista como a nossa, é como se o seu corpo fosse propriedade de qualquer um. Para termos essa consciência buscando mudanças precisamos empoderar cada vez mais as meninas”, falou Milena Neri Guimarães, 21 anos, estudante de Fisioterapia no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Integrante do projeto PET Multiplicando saúde: promoção da saúde de adolescentes na perspectiva da educação popular

A importância do empoderamento também fez parte do desenvolvimento de Clara Marcela da Silva, 19 anos, participante do projeto Agentes da Cidadania, atriz e estudante. “A vida de meninas é cheia de tabus, por exemplo, quando falo da relação com meu corpo, vejo que desde criança eu não compreendia as diferenças entre meus amigos. Mas a adolescência foi um período de descoberta, porque fui me empoderando, melhorando a relação com meu corpo, quebrando alguns padrões, e respeitando a diversidade das outras pessoas também. Hoje, em cada marca, em cada cicatriz do meu corpo, vejo que meu peso não define minha saúde e quem eu sou”, falou. 

Condição de reconhecimento do corpo também foi sentido pela venezuelana Gaby Carolina Mencias Serano, 17 anos, estudante e ativista LGBTQI+. Gaby Mencias que, atualmente mora em um  abrigo em Boa Vista/RR, nasceu um bebê intersexo e contou com a família para passar pelos processos de socialização. “Minha família foi muito importante no meu desenvolvimento, pois eles eram meu apoio para me reconhecer. E isso não é uma realidade para todas. Conheci muitas meninas aqui no abrigo que são LGBTQI+, mas não falam que são por medo dos pais. Eu participo de grupos de apoio para esses garotos e garotas aqui no abrigo buscando integração, apesar do Brasil ter uma cultura diferente da Venezuela, ainda temos muitas dificuldades”, destacou.  

“Os vários tipos de família não podem ser deixados de lado, quanto ao cuidado, porque muitas vezes entendemos que ‘cuidar de adolescente’ é excluir a família. O adolescente é um sujeito de direitos, portanto é importante a busca pela autonomia. A família também pode ser um recurso terapêutico, e quando trabalhamos com a saúde da família e com o território, a abordagem familiar é essencial”, avaliou Denise Leite Ocampos, doutora hebiatra e médica de família e comunidade, especialista em saúde mental, gestão pública e ensino na saúde e Gerente de Atenção à Saúde de Populações em Situações Vulneráveis e Programas Especiais (GASPVP). 

O evento foi realizado em alusão ao  Dia Internacional da Menina, celebrado anualmente em  11 de outubro. Em referência a data, a diretora executiva do UNFPA, Dra. Natalia Kanem, emitiu declaração onde reforça importância em escutar e fazer ouvir as vozes das meninas. “Com demasiada frequência suas vozes são silenciadas em casa, nas escolas e em âmbito público. Para milhões de meninas no mundo, esse silêncio se impõe por meio da mutilação genital feminina, do casamento infantil e outras práticas nocivas. Essas práticas não apenas violam a integridade e a autonomia corporal de uma menina; mas também roubam a confiança e a capacidade para tomar decisões informadas sobre sua vida”, relatou Dra. Natalia Kanem.