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Refugiados e migrantes desconstroem estereótipos de gênero nos abrigos de Roraima

Projeto cria espaço que estimula homens a refletir sobre questões de gênero, masculinidade, violência, paternidade e migração

 

A iniciativa “Novas Masculinidades”, implementada desde maio nos abrigos da Operação Acolhida em Boa Vista, capital de Roraima, tem criado um espaço seguro para que homens refugiados e migrantes reflitam e se expressem sobre os mitos e medos que os cercam, ressignificando conceitos da masculinidade tradicional. O programa faz parte das ações de enfrentamento à violência de gênero, que é uma das frentes de atuação do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) junto à população refugiada.

O projeto trata de questões como o entendimento do papel dos homens na sociedade, o peso da responsabilidade de manter uma família, passando por frustrações, autoestima, sonhos, compreensão de outros grupos sociais e o impacto da masculinidade tradicional na vida de cada participante. As discussões abordam saúde física, mental, relações interpessoais e a integração no país de acolhimento.

A iniciativa “Novas Masculinidades” é realizada em parceria entre o UNFPA e o ACNUR, facilitado pela organização parceira Associação Voluntários para Serviço Internacional (AVSI), com o apoio da Federação Humanitária Internacional (FFHI) e Fraternidade Sem Fronteiras (FSF). O projeto se baseou em outras iniciativas direcionadas para homens, como a campanha “Valente não é Violento”, implementada pela ONU Mulheres em parceria com o Ministério Público. 

Os responsáveis pelo projeto “Novas Masculinidades” trabalham com grupos de líderes identificados nos abrigos indígenas e não indígenas da Operação Acolhida, que recepciona as pessoas refugiadas e migrantes vindas da Venezuela. 

Luis Zambrano, de 34 anos, está no abrigo Pricumã e participa da iniciativa. Para ele, o programa trouxe um sentimento de alívio por poder desconstruir alguns mitos. “Agora sei que posso expressar meus sentimentos e que não sou menos forte ou menos homem por conta disso”, conta o esposo e pai de três filhos, que chegou com a família ao Brasil no começo deste ano.

As atividades em grupos são uma das ferramentas usadas durante o treinamento para descontrair os participantes e criar um ambiente acolhedor e leve. Conceitos como “homem não chora”, “homem não sente dor”, “homem não demonstra sentimentos”, “homem não tem medo” são comuns a todos os grupos de participantes, tanto na população refugiada indígena quanto na não indígena. A partir daí se começa a entender o impacto que esses estereótipos podem afetar no desenvolvimento de meninos e homens.

“O UNFPA já vinha desenvolvendo espaços seguros de masculinidades nos abrigos da operação, mas essa metodologia do Projeto Comunitário Novas Masculinidades agrega no sentido de envolver os homens da comunidade não só como participantes, mas também como facilitadores e mobilizadores das sessões”, afirma Igor Fischer, assistente de campo do Fundo de População da ONU.

“Esse tipo de iniciativa é importante para que possamos abordar temas que não são comumente falados na comunidade”, explica Pedro Pacheco, Assistente de Proteção do ACNUR em Boa Vista e um dos moderadores do treinamento.

Pedro revela que um dos sentimentos mais identificados entre os participantes é o de frustração e impotência frente à nova realidade causada pelo deslocamento forçado. “A impossibilidade de prover para a sua família é um dos pontos mais comentados pelos homens dos grupos. Por isso a possibilidade de desconstrução de mitos e medos é importante para que esses homens possam reagir de uma melhor forma a esta nova situação”, diz Pedro.

Juan Ossa, coordenador do abrigo Pricumã e facilitador do projeto, ressalta que outro ponto abordado é o maior envolvimento da comunidade masculina nas atividades sociais do abrigo, normalmente com maior presença das mulheres.

“O ócio e a falta de oportunidade de trabalho fora do abrigo podem levar à manifestação de relações violentas no núcleo familiar e social. Por isso convidamos os homens durante o treinamento a pensar em como se envolverem mais e como motivar outros homens a fazerem parte das soluções que foram identificadas durante as atividades”, ressalta Juan.

E essa foi uma das conclusões a que Luís chegou após as atividades e discussão:  compartilhar o que aprendeu com outros homens, e trazer mais colegas para pensarem além das limitações atuais e vislumbrar novas possibilidades. 

“Agora quero falar o que aprendi para meus colegas no abrigo, onde muitos ainda pensam como eu pensava e não se sentem livres para se expressar. Não tem problema sentir medo, não tem problema valorizar o trabalho das mulheres, e podemos sonhar e nos ajudar”, concluiu Luís.