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Assim como sua mãe? Sete maneiras de entender como a maternidade mudou, ou não, nos últimos 25 anos

22 Maio 2019
(Foto: UNFPA/Bruno Feder)

Há vinte e cinco anos, o mundo estava se transformando. A África do Sul teve suas primeiras eleições multirraciais, elegendo Nelson Mandela como presidente. A Suíça começou a permitir o registro de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Era o alvorecer da era da Internet.

E era o começo do novo consenso global em saúde sexual e reprodutiva - que buscava empoderar mulheres e comunidades para determinar seus próprios futuros.

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), no Cairo, 179 governos adotaram um revolucionário Programa de Ação que exigia que todas as pessoas tivessem acesso a cuidados em saúde sexual e reprodutiva, inclusive planejamento familiar voluntário, e serviços em saúde materna fortalecidos.

Nos anos que se seguiram, avanços médicos, progressos sociais e crescente apoio para os direitos das mulheres ajudaram a reformular a experiência da maternidade em todo o mundo. Mas quanto mudou de verdade?

Abaixo, explicamos como a maternidade foi transformada - e como não foi.


Hoje, Alma defende os direitos das mulheres. “As mulheres agora, sabem claramente que possuem direitos e que devem poder decidir sobre o que se passa com seus corpos.” (Foto: ©UNFPA/Rizzo Produções)

1. As mulheres estão menos propensas a morrer enquanto se tornam mães

Alma Odette Chacón, da Guatemala, era apenas uma jovem adolescente quando sua mãe morreu durante o parto. “Foi muito difícil”, relembra a senhora Chacón, agora com 60 anos. “Inesperadamente você perde a peça chave da sua família, com cada pessoa seguindo seu próprio caminho.”

Tragédias como essas são menos comuns hoje. Ao longo dos últimos 25 anos, a mortalidade materna caiu 40%. Foi uma conquista enorme - mas ainda está aquém dos objetivos globais.

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), em 1994, líderes globais concordaram em reduzir as mortes maternas a menos de 75 por cada 100 mil nascidos vivos. Hoje, a razão de morte materna está em 216 por cada 100 mil nascidos vivos.

Isso corresponde a mais de 800 mulheres morrendo, todos os dias, enquanto dão à luz. A maior parte dessas mortes é evitável.


Tefta, uma parteira, costumava atuar em várias casas. “Eu costumava ajudar muito porque muitos partos aconteciam em casa. Não havia muitos centros de saúde.” (Foto: ©UNFPA/G. Banaj)

2. Mais mulheres estão se tornando mães sob os cuidados de um(a) profissional do parto, como a parteira

Uma das principais razões pela qual as mortes maternas estão diminuindo é que mulheres estão recebendo mais cuidados profissionais em obstetrícia. A assistência especializada ao parto aumentou de 67%, em 2010, para 79% em 2017. 

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) está trabalhando junto a governos e associações de obstetrícia para aumentar a cobertura desse serviço que salva vidas, apoiando mais de 700 escolas de obstetrícia e treinando mais de 115 mil parteiras desde 2009.

Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido. Perto de 30 milhões de mulheres não dão à luz em uma unidade de saúde e 45 milhões recebem cuidados pré-natais inadequados. 

Mas Tefta Shakai, uma parteira na Albânia, está otimista. Ela tem visto a diferença que sua profissão faz - e o progresso usufruído por suas próprias filhas e netas.

“Eu estou feliz por ter ajudado tantas mulheres”, diz Tefta.
 


Mediha diz que manter seus cinco filhos tem sido um desafio (Foto: ©UNFPA/I. Kapetanovi´c)

3. Mulheres estão mais propensas a serem mães por escolha, e não por acaso

Nós últimos 25 anos, a prevalência de métodos contraceptivos aumentou em 25%. E gravidezes não-desejadas caíram 16%.

Esses números representam uma transformação nos direitos e na saúde das mulheres. Quando mulheres têm o poder de escolher por si mesmas quando e se querem ter filhos, elas são mais capazes de buscar educação e alcançar aspirações.

Apesar dessas conquistas, muitas mulheres ainda não exercem controle total sobre seus corpos e sua reprodução. Hoje, mais de 200 milhões de mulheres ao redor do mundo querem evitar a gravidez, mas não estão usando métodos contraceptivos seguros e efetivos.

Mediha Besic, da Bósnia e Herzegovina, conhece bem essas dificuldades. Ela se tornou mãe aos 16 anos. Agora, aos 35, tem cinco filhos. “Eu queria usar métodos contraceptivos mas, quando você não tem dinheiro, não é acessível”, conta ao UNFPA.


“Eu amo meu trabalho”, diz Rasamee. Ela quer ter uma família menor do que suas gerações anteriores tiveram (Foto: ©UNFPA/Lexicon)

4. Mulheres estão tendo menos filhos

Há 25 anos, a taxa de fertilidade média global era de 2.9 nascimentos por mulher. Hoje, ela caiu para uma média de 2.5, e é esperado que o declínio continue.

Essas mudanças refletem “a realização crescente das escolhas reprodutivas, por meio da qual mulheres e casais são capazes de decidir o número, o espaçamento e o momento de ter seus filhos”, diz o secretário-geral da Organização da Nações Unidas (ONU), António Guterres.

Rasamee, na Tailândia, é uma dessas mulheres.

Ela tem uma impressionante escolaridade, uma carreira exigente e um novo bebê. Ela e o marido estão se adaptando alegremente à nova família, e dizem que gostariam de ter mais uma criança - mas não três ou quatro, que costumava ser comum em sua comunidade.

“Eu tenho sorte de que hoje tenho mais oportunidades”, diz Rasamee. 


Shaimaa, no Iêmen, ficou grávida após se casar aos 14 anos. Taxas de gravidez na adolescência são altas em muitas partes do mundo, particularmente nas áreas com incidência de casamento infantil. “Na nossa comunidade, garotas casam muito cedo, com idades entre 9 e 10”. Shaimaa diz. “No meu caso, eu tinha 14 e era considerado tarde.” (Foto: ©UNFPA Yemen/Fahmia Al-Fotih)

5. Mulheres estão menos propensas a se tornarem mães na adolescência

A maternidade, em média, começa mais tarde do que costumava. Essa mudança se reflete em um declínio global da taxa de gravidez na adolescência

Em 1994, a taxa de gravidez entre adolescentes - garotas entre 15 e 19 anos - era de 65 para cada mil mulheres. Hoje, esse número é de 44 nascimentos a cada mil mulheres.

Essa tem sido uma conquista fundamental para a saúde e os direitos de mulheres e meninas. A gravidez precoce é devastadora para o bem-estar e os objetivos de vida de uma jovem garota. Mães adolescentes são menos propensas a terminar os estudos ou a encontrar trabalho. Elas são mais vulneráveis à pobreza e exclusão, e sua saúde é mais frágil. As complicações durante a gravidez e o parto estão liderando as causas de morte entre garotas adolescentes.

Apesar de as taxas de gravidez na adolescência terem caído, elas permanecem alta em muitas partes do mundo, particularmente em áreas onde o acesso a contraceptivos é baixo e taxas de casamento infantil são altas.


Por 13 anos, Margret (à esq.) viveu com uma fístula obstétrica, suportando a ridicularização e o isolamento. Finalmente, ela recebeu tratamento durante uma campanha apoiada pelo UNFPA (Foto: ©UNFPA Malawi/Henry Chimbali)

6. Lesões traumáticas no parto - como a fístula obstétrica - estão sendo reconhecidas como um grande problema de saúde

Apesar do cuidado em saúde materna ter se aperfeiçoado, a gravidez e o parto permanecem sendo arriscados para muitas mulheres ao redor do mundo. Para cada mulher que morre no parto, uma estimativa de 20 a 30 sofrem lesões, infecções ou ficam com alguma deficiência.

Uma das lesões mais sérias de parto é a fístula obstétrica - um orifício no canal vaginal que pode se desenvolver durante um trabalho de parto prolongado e obstruído. 

Seu impacto entre as mulheres é catastrófico. Sobreviventes de fístula com frequência experimentam incontinência urinária, problemas médicos crônicos e isolamento social. Estima-se que milhares de mulheres na África subsaariana, naÁsia, na região árabe, América Latina e Caribe estão vivendo com fístula, com casos incontáveis se desenvolvendo todos os anos. 

Essa condição é quase inteiramente evitável quando as mulheres têm acesso a atendimento médico oportuno e de alta qualidade - em particular, partos cesarianos. A fístula persiste em grande parte porque sistemas de saúde estão falhando em proteger a saúde e os direitos humanos das mulheres e meninas mais pobres e mais vulneráveis.

Mas defensores da saúde têm lançado luz sobre este problema. Em 2003, o UNFPA e seus parceiros lançaram a Campanha pelo Fim da Fístula, que agora trabalha, em mais de 50 países, para tratar e empoderar sobreviventes de fístula. Em 23 de maio de 2013, as Nações Unidas começaram a comemorar o Dia Internacional pelo Fim da Fístula Obstétrica, um dia anual para estimular ações em relação ao problema. E, há dois anos, o secretário-geral da ONU fez um chamado ao mundo para acabar com a fístula dentro do prazo de uma geração.


Rajeshwari diz que, durante sua vida, ela tem visto grandes mudanças nas expectativas e possibilidades para as mulheres (Foto: ©UNFPA/Stormy Clicks)

7. A carga doméstica desigual suportada por mães (e outras mulheres cuidadoras) diminuiu - mas em apenas sete minutos.

Ao longo dos últimos 25 anos, uma pesquisa sobre o uso do tempo revelou um enorme desequilíbrio de gênero no trabalho doméstico não-remunerado, incluindo cuidados de crianças e de pessoas idosas. Essas desigualdades persistem mesmo quando mulheres trabalham as mesmas horas fora de casa. Em média, mulheres gastam cerca de três vezes mais tempo com cuidados de crianças e outros trabalhos domésticos do que homens, revela a Organização Internacional do Trabalho.

Nos 23 países onde dados estão disponíveis, a parcela masculina dos cuidados não-remunerados cresceu durante as décadas mais recentes -- mas não muito. Entre 1997 e 2012, a diferença de gênero no que se refere ao tempo gasto em cuidados não-remunerados diminuiu apenas sete minutos por dia.

“Neste ritmo, vai levar 210 anos (ou até 2228) para encerrar a disparidade de gênero no cuidado não-remunerado nesses países”, a OIT afirmou em um relatório de 2018.

Este fardo desproporcional reduz o tempo disponível para mulheres gastarem em trabalho pago e outros objetivos. Para muitas mulheres, ter uma criança significa deixar o mercado de trabalho para transportar a carga em casa.

Na Índia, Rajeshwari sentiu que os papéis e expectativas de gênero contiveram suas possíveis aspirações. Depois que se casou, ela dedicou a maior parte de sua vida para cuidar de sua família.

Agora com 60 anos de idade, ela olha com satisfação para suas duas filhas com nível superior e bem sucedidas. Mas ela quer que elas tenham mais oportunidades do que ela teve. “Eu contei histórias a elas e li livros com ênfase em servir e se tornar seres humanos honestos. Eu queria vê-las crescer e alcançar mais”, ela disse.