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“Eu não fiz pré-natal devido à dificuldade para chegar tanto em Santa Cruz, quanto em Belém”, diz Tânia Cabral, moradora da zona rural de Santa Cruz do Arari, no Pará

O município é um dos contemplados com o “Saúde das Manas”, projeto que busca fortalecer o acesso das mulheres ao atendimento em saúde no  arquipélago do Marajó, mesmo durante a pandemia da Covid-19

Por Melina Marcelino

Tânia Cabral, 26 anos, está grávida do quarto filho. O primeiro nasceu quando ela tinha 14 anos. Moradora da zona rural de Santa Cruz do Arari, ela conta que sempre encontrou dificuldades para receber atendimento médico e fazer o pré-natal. 

Atualmente, Tânia Cabral ultrapassa 36 semanas de gestação e precisará se deslocar até Belém para ser atendida por um obstetra. “Eu não fiz pré-natal devido à dificuldade para chegar tanto em Santa Cruz, quanto em Belém (Capital do estado do Pará - Norte do Brasil). Se tivesse um médico aqui em Santa Cruz seria mais fácil, até porque eu sempre fui bem atendida aqui. Mas como não fiz o pré-natal, a gravidez ficou delicada, então, é possível que eu esteja esperando gêmeos e como não tem obstetra aqui, vou para Belém”, diz Tânia.

Para facilitar o atendimento de mulheres como a Tânia Cabral, o projeto "Saúde das Manas" está criando corpo e cada vez mais se consolidando entre o público que busca alcançar as mulheres que vivem no arquipélago do Marajó, no Pará - Amazônia Legal. A equipe de consultores de comunicação do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) visitou três municípios que compõem o arquipélago para acompanhar a instalação dos equipamentos das salas de telemedicina –  previstas no projeto e fundamentais para o atendimento de saúde das mulheres. 

A cidade de Santa Cruz do Arari foi a primeira. A viagem começou em Belém, capital do Pará, em 19 de novembro. O barco para chegar até Santa Cruz sai de Belém – todos os dias – às 6h da manhã e por volta das 14h a equipe chegou ao município. Todos os procedimentos de segurança e prevenção a Covid-19 foram observados.


Mapa Belém - Santa Cruz do Arari (Imagem: reprodução/google maps)

Em novembro, considera-se que o rio está em período de seca. Assim, o barco só vai até o porto da comunidade de Jenipapo, uma localidade próxima de Santa Cruz do Arari. Para chegar na área urbana de Santa Cruz do Arari é preciso seguir de carro por aproximadamente 5 quilômetros, em uma estrada de terra. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o local tem uma população de mais de 10 mil pessoas e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado baixo, 0,557. A média brasileira é de 0,759.

A Unidade Mista de Saúde da cidade, onde a sala de telemedicina será instalada, conta com um clínico geral para atender a população. No entanto, se o morador da cidade precisar de uma consulta mais específica, com um médico especialista, ele precisa ser encaminhado para a capital do Pará, Belém, a mais de 100 km de distância.

Assim que for inaugurada a sala de telemedicina, as mulheres do município não precisarão se deslocar até a capital caso necessitem de um ginecologista ou obstetra. Isso porque o atendimento será ofertado de forma remota. Atualmente, quem faz o atendimento de pré-natal das mulheres em Santa Cruz do Arari são os enfermeiros e enfermeiras da unidade de saúde. 

Foi assim que a professora Lindaura Gemaque, 46 anos, fez o pré-natal dos dois filhos. Mesmo sendo atendida na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Santa Cruz, mas preferiu ter os filhos em Belém, para ser assistida por um especialista. “Fiz o pré-natal dos meus dois filhos aqui, mas com enfermeiro, o parto eu preferi ir para Belém e no segundo parto aproveitei e fiz a cirurgia para não ter mais filhos. Foi uma escolha minha, a vida é muito difícil e dois filhos era o que eu queria” relata a professora.


Lindaura Gemaque, professora (Foto: UNFPA Brasil) 

Para Lindaura Gemaque, que também faz parte da Associação de Amigos e Filhos de Santa Cruz e é Conselheira Tutelar, o projeto "Saúde das Manas" será uma ferramenta fundamental para as mulheres e meninas do município. Segundo ela, os casos de gravidez na adolescência vêm aumentando na região e a consulta remota, por meio da telemedicina, vai ajudar a esclarecer as dúvidas de muitas mulheres. 

“Eu acredito que a gravidez na adolescência ocorre muito pela falta de estrutura das famílias. Muitos pais não conversam com seus filhos, temos esse tabu aqui. Dessa forma, as crianças aprendem com os colegas e acabam engravidando cedo. Isso traz diversos problemas, afinal, é uma criança cuidando de outra criança. Por isso é importante ter essas consultas, as meninas poderão tirar suas dúvidas e aprender como se cuidar”, diz a professora.


Keithian Maia, enfermeira fazendo atendimento (Foto: UNFPA Brasil) 

O tabu em falar sobre cuidados com a saúde reprodutiva, associado à falta de recursos impedem que muitas mulheres busquem ajuda. É o que conta a enfermeira Keithian Maia, 42 anos, que veio há 10 anos do Maranhão, no nordeste do Brasil, para trabalhar em Santa Cruz do Arari. 

Hoje, Keithian Maia atua na comunidade São José, na zona rural, junto a seis Agentes Comunitários de Saúde, que acompanham principalmente mulheres, idosos e crianças. “Em outubro, fizemos uma campanha para coletar o preventivo. Temos muitas mortes de mulheres devido ao câncer de colo de útero. O projeto vai ser muito bom, porque a gente não tem ginecologista aqui e muitas mulheres deixam de ir para Belém se consultar por vergonha ou dificuldades de sair do município. É complicado, são muitas horas de viagem até a capital e nem todas têm dinheiro para pagar a passagem ou lugar para ficar em Belém” conta a enfermeira.

Produtos de higiene e insumos em saúde sexual e reprodutiva

Até o momento, o projeto "Saúde das Manas" já realizou a entrega de 600 kits dignidade (contendo produtos de higiene pessoal) para as mulheres residentes nos municípios impactados pelo projeto.


Leticia Souza, 21 anos, recebeu o Kit Dignidade (Foto: UNFPA Brasil) 

Letícia Souza Melo, 21 anos, foi uma das beneficiadas. A jovem está grávida do terceiro filho e está fazendo o pré-natal na UBS de Santa Cruz do Arari com a equipe de enfermagem. Ela também é acompanhada pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS).

“Estou gostando de fazer o pré-natal aqui. O atendimento dos agentes de saúde é muito bom, eles vêm sempre na minha casa, me entregaram o kit dignidade e gostei de receber os materiais de higiene”.

Para novembro, ainda está prevista a entrega de tablets para apoiar o trabalho dos coordenadores e coordenadoras da atenção básica, bicicletas para facilitar a locomoção de agentes comunitários de saúde e Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para profissionais de saúde, que estão na ponta do sistema básico de saúde destas localidades. 

Necilene Martins é uma das agentes de saúde que vai receber os equipamentos, inclusive os EPIs, necessários para quem exerce a atividade em constante exposição com o novo coronavírus. “Meu trabalho é nas ruas, visitando as pessoas nas casas delas, entrego remédio, faço todo tipo de atendimento e estou sempre à disposição da população”, pontua Necilene. 


Necilene Martins, Agente Comunitária de Saúde (Foto: UNFPA Brasil) 

A agente também avalia que a entrega dos kits dignidade, com itens de higiene pessoal, vai fazer a diferença para muitas mulheres. “Tem muitas mulheres carentes que não têm condições de comprar esses materiais, esse kit é simples, mas faz a diferença na vida delas”, garante.

A oferta de métodos contraceptivos também será ampliada por meio da doação por parte do Fundo de População da ONU, de insumos para os serviços de saúde da região. Entre os itens estão camisinhas, contraceptivos injetáveis e pílula de emergência.  

 

+ Fotos Especial Ilha de Marajó

 

O projeto “Saúde das Manas” também pretende viabilizar a produção de um material informativo direcionado para as mulheres da Ilha do Marajó. 

A equipe do Fundo de População da ONU  está produzindo conteúdos sobre o projeto e informações sobre cuidados com a saúde e está divulgando nas rádios comunitárias, redes sociais e grupos de trocas de mensagens dos municípios envolvidos na ação. 

A moradora do município de Salvaterra, Joélia Silva, 42 anos, descobriu o serviço de consultas de ginecologia por telemedicina. Ela é professora, tem dois filhos e já procurou a Unidade de Saúde para agendar a consulta. Salvaterra foi a segunda cidade visitada pela equipe de consultores do UNFPA.  

De Santa Cruz do Arari para chegar em Salvaterra são mais cinco horas de barco até o município de Cachoeira do Arari. Em Cachoeira é preciso pegar uma van para chegar até Salvaterra. O percurso dura aproximadamente duas horas divididas em tempo de estrada e uma travessia de balsa. Assim, a equipe saiu de Santa Cruz do Arari às 2h da madrugada e chegou em Salvaterra próximo de 11h da manhã, do dia 20 de novembro.

De acordo com dados do IBGE, a cidade tem uma população de pouco mais de 24 mil habitantes, 15 Unidades de Saúde, 20 leitos de internação e nenhum médico especialista. A sala de telemedicina do projeto “Saúde das Manas” já está instalada no Hospital Municipal Dr. Almir Gabriel. 

O local é um espaço organizado com cadeiras, mesa, ar-condicionado e maca para exames. A televisão, o computador e a impressora já estão configurados e funcionando normalmente.


Joélia Silva recebe orientações de Alcione Cruz, enfermeira do Hospital Municipal Dr. Almir Gabriel, em Salvaterra - PA (Foto: UNFPA Brasil)

Joélia Silva, de 42 anos, estava no hospital, aguardando para agendar uma consulta com um profissional especialista em ginecologia por telemedicina. Ela contou para a equipe, que perdeu a avó e a bisavó para o câncer de colo de útero.

“Unir a tecnologia com o atendimento médico é perfeito. Hoje, em meio a essa situação de pandemia, esse projeto é de grande valia para as mulheres. Descobri esse serviço pelo WhatsApp. Estou desde 2018 com o resultado do meu preventivo e não tinha médico para avaliar. Como tive casos de morte na família por câncer de colo de útero, eu me preocupei em vir logo agendar minha consulta e para melhorar saber que é uma ginecologista mulher me deixa ainda mais segura”, disse Joélia Silva. 

Serão investidos no projeto cerca de US$ 300 mil dólares, o que equivale a R$ 1,6 milhão de reais. Foram comprados Equipamentos de Proteção Individual (EPI), kits dignidade e parte do dinheiro foi investido na compra de equipamentos de TV, notebooks, tablets e acessórios para a montagem de salas telemedicina nos municípios. Em contrapartida, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Pará (Cosems/PA), contratou duas médicas e assegurou a contratação do serviço de internet banda larga para realizar as teleconsultas. 

A atual gestão dos municípios participantes do projeto também se comprometeu a fornecer espaço a fim de estruturar as salas de telemedicina, com mesa, cadeiras e profissionais para apoiar a ação. 

“Recebemos os equipamentos doados pelo Fundo de População da ONU  e agora estamos fazendo as instalação nos municípios, buscamos parcerias com empresas para ter um link ou internet a cabo dedicada. A consulta de telemedicina precisa ter uma internet boa, o médico precisa ver a paciente com uma imagem de qualidade, precisa ter acesso aos exames e enviar as receitas com rapidez. O projeto está dando tão certo que estamos expandindo para os outros municípios do Marajó como é o caso de Soure”, explica o coordenador do Programa de Telemedicina do Cosems, Jader Gardeline.


Jader Gardeline, coordenador do Programa de Telemedicina do Cosems e a Secretária de Saúde de Soure Maria Helena Gomes (Foto: UNFPA Brasil)

Ampliação da rede

Para ampliar a rede de atendimento para outros municípios do Marajó, o Cosems decidiu adquirir equipamentos para a montagem de salas telemedicina para os municípios de Cachoeira do Arari, Chaves, Curralinho, Muaná, Ponta de Pedras, Portel, Gurupá, São Sebastião da Boa Vista e Soure, aumentando o raio de ação do projeto e possibilitando que mais mulheres sejam assistidas pela especialidade de ginecologia e obstetrícia. 

Possibilitar um atendimento especializado para a população era o sonho da secretária de Saúde de Soure, Maria Helena Gomes. A cidade localizada a 80 quilômetros da capital paraense é conhecida como "a capital do Marajó". Famosa pelas praias de água salgada e pela produção de queijos leite de búfala, ela foi a terceira parada da equipe de consultores do UNFPA, que chegaram ao local na manhã de 21 de novembro.Para chegar em Soure, partindo de Salvaterra é necessário pegar uma balsa. A viagem é rápida e dura no máximo 30 minutos.

A secretária de saúde recebeu a equipe na Unidade de Saúde da Família da Matinha, unidade onde foi instalada a sala de telemedicina.

“A gente sonha e um dia o sonho acontece, a população vai ser beneficiada e para nós isso é gratificante. Moramos longe da capital e temos um município com Índice de Desenvolvimento Humano baixo. É  muito importante ter esse atendimento por telemedicina para a população, que tem dificuldade de ir para a capital do estado e os médicos têm dificuldade de chegar até aqui. A parceria vai fazer a saúde do município avançar, com toda certeza” garante a secretária, Maria Helena.

 

Como agendar uma consulta?

Para agendar uma consulta por telemedicina, as mulheres dos municípios envolvidos no projeto precisam procurar uma Unidade Básica de Saúde. No local, ela passarão por uma triagem com a equipe de enfermagem e a consulta será agendada. É importante destacar que a paciente precisa chegar na unidade 30 minutos antes do horário da consulta, portando seus documentos de identificação e exames.

Durante a consulta a paciente será acompanhada por uma enfermeira. A receita, orientações e pedidos de exames serão enviados pelas médicas e impressos na hora da consulta, na própria sala de telemedicina e entregues já com o carimbo e assinatura da médica.

 

O Projeto

Com o objetivo de fortalecer o sistema de saúde local em municípios do Marajó neste período de pandemia, o Fundo de População da ONU (UNFPA) e o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Pará (Cosems/PA) firmaram parceria para realizar o projeto “Saúde das Manas”. 

A previsão é atender mais de 80 mil mulheres em idade reprodutiva, residentes nos municípios de Santa Cruz do Arari, Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Melgaço e Salvaterra do arquipélago do Marajó, no estado do Pará.

A estratégia para o alcance dessas mulheres prevê o fortalecimento do sistema de saúde da região com a instalação de salas de telemedicina, que já começaram a ser montadas, possibilitando consultas online com médicas especialistas em ginecologia e obstetrícia que já podem ser agendadas nas unidades de saúde.

 

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Especial Ilha de Marajó