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Zika, a epidemia da desigualdade

22 Julho 2016
Greicy Alves with her son, Gabriel, who has microcephaly. Ms. Alves was diagnosed with Zika in her first trimester. Marginalized women are disproportionately affected by the outbreak. © UNFPA/Tatiana Almeida

Considerando as áreas geográficas de maior incidência de infecção pelo vírus zika e as caraterísticas da população mais afetada - mulheres, jovens e população negra - é possível concluir que a epidemia de zika não é apenas um problema de saúde pública, mas também o resultado das desigualdades sociais que ainda persistem. 

Além das vulnerabilidades relacionadas com o acesso a água tratada e saneamento básico, é urgente resolver as desigualdades no acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Esta foi a mensagem da Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margareth Chang, proferida na 69ª Assembléia Mundial da Saúde realizada em Maio, em Genebra. “O zika revela a consequência extrema da ausência de um acesso universal aos serviços de planejamento sexual e familiar”, afirmou.

Em Março, o Diretor Executivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Babatunde Osotimehin, tinha instado os governos a fornecer informações e a garantir o acesso ao planejamento reprodutivo das mulheres, entendendo que só assim elas podem tomar decisões informadas sobre sua saúde reprodutiva e se proteger da infecção, uma vez que está confirmado o risco de contágio por via sexual. 

“Nossa, que zica!” 

O termo "zica", que na gíria popular é sinônimo de coisa esquisita ou desconhecida, entrou definitivamente no vocabulário do povo brasileiro, no ano 2015, pelas piores razões. Segundo o Ministério da Saúde, existem 1.709 casos confirmados de microcefalia, e outras alterações do sistema nervoso, sugestivos de infecção congênita de um total de 8,039 casos suspeitos em todo o país desde Outubro de 2015. Bahia e Pernambuco são os Estados mais afetados no Brasil com, respectivamente, 277 e 371 casos confirmados de microcefalia.

“Eu tive zika, tive tudo a que o pobre tem direito de ter!”, Eunice, moradora no Calafate.

É Marta Leiro quem faz a pergunta: "Você teve zika?".

Eunice não hesita na resposta: "Eu tive zika, tive tudo a que o pobre tem direito de ter!".

Ambas integram o Coletivo de Mulheres do Calafate (CMC), uma organização comunitária feminista parceira do UNFPA, que tem como objetivo acabar com a violência de gênero no intuito de promover sua saúde e direitos humanos.

Febre, erupções cutâneas, conjutivite, dores nos músculos e articulações, dor de cabeça e mal-estar são, de acordo com a OMS, os sintomas mais comuns do vírus zika. Não se sabe ao certo o período de incubação do vírus, certo é que os sintomas permanecem por 2 a 7 dias.

Greicy Alves, de 30 anos, não planejou a segunda gravidez e quando aos três meses de gestação recebeu o diagnóstico de infecção por zika estava longe de saber que havia risco de microcefalia. No dia em que Gabriel nasceu, o zika era já uma emergência global de saúde pública, sendo o Brasil um dos 60 países afetados (39 nas Américas), e estava confirmada a associação da infecção por zika com os casos de microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso.

"Aí foi que eu vim saber desse vírus zika o que ele causava. Foi uns cinco dias depois que eu vim vendo o tamanhinho da cabeça, a diferença com os outros bebê e a ficha foi caindo”, recorda.

No Calafate, Greicy foi a primeira mãe de uma criança com microcefalia. Mulher e mãe solteira, com poucos recursos ou apoio, ela sofreu com o preconceito e isolou-se em casa. "O preconceito rola por demais, todo o mundo olha, cutuca o outro. Antes eu ficava muito irritada com isso mas eu não ligo mais. ‘Oh ele tem aquela doença, é?’", desabafa.

Para Azânia Correia, do Coletivo de Mulheres do Calafate, o vírus zika representou mais um desafio para a comunidade: “Uma comunidade periférica de Salvador, ela já é violentada diariamente pelos seus direitos interrompidos então o zika constituiu mais um problema de saúde pública. A gente percebeu a fragilidade a que as mulheres estavam sendo expostas”. No caso de Greicy, recorda, foi preciso acolher e apoiá-la porque “além de ser mãe ela é mulher, tem a vida dela, tem outro filho então ela não estava sendo lembrada. E ela não é mãe do menino com microcefalia ela é Greicy, ela tem nome”.

 

Um quarteirão mais adiante vive Cláudia Santos de Jesus, grávida de 7 meses, cuja gravidez foi desejada e planejada. “Se eu soubesse {que havia o vírus zika } eu teria evitado, segurado mais um pouco para engravidar. Porque eu deixei de me prevenir, engravidei porque eu quis. Hoje já estou aliviada porque graças a Deus os exames comprovam que o meu bebê está bem, que está perfeito, e eu só estou aguardando a hora”, conta.

A sorte ditou que nem Cláudia nem o marido fossem infectados pelo vírus zika, ainda assim durante cinco meses a gestante viveu preocupada: “chegava na recepção [do posto de saúde] e nunca conseguia agendar uma consulta, não tinha agenda da médica, não tinha dia. Só com cinco meses que eu fui à médica e ela me perguntou porque eu demorei tanto para procurar um posto de saúde. (...) Ela até me falou que eles sabiam na recepção que a prioridade era para as grávidas só que não sei se por má vontade ou por falta de consciência (...) eu nunca conseguia uma vaga”.

Nas idas ao posto de saúde a epidemia do vírus zika e suas consequências estão bem presentes: “às vezes a gente está no posto de saúde chega o pessoal cobre a cabecinha {do bebê} para ninguém ver ou ficar fazendo pergunta. Tem pessoas que fazem muita pergunta indireta e aí a pessoa se sente constrangida. Quando a pessoa não se cala, começa o desaforo”, relata Claúdia.

 

Durante as sessões de terapia do filho, Greicy conheceu outras mães de crianças com microcefalia. As histórias em comum levaram à criação de “Mamães de Anjos”, um grupo de entreajuda de mulheres e mães que lutam pelos seus direitos e os de suas crianças. “O meu sonho é ver o Gabriel andando, falando, correndo e eu estar reclamando com ele como eu faço com o meu Flávio Henrique”, conta Greicy emocionada.

“Como teria sido a vida de Greicy e a de tantas outras mulheres brasileiras se tivessem tido acesso a educação, a serviços de saúde e recebido aconselhamento sobre seus direitos reprodutivos?”, é a pergunta de Jaime Nadal, Representante do UNFPA Brasil, e acrescenta “este é o momento para aprendermos com o passado e garantirmos estes direitos no futuro para que cada gravidez seja desejada, cada parto seguro e o potencial de cada jovem realizado”.

O UNFPA Brasil prepara-se para lançar oficialmente a iniciativa “Atuando em contextos de Zika: direitos reprodutivos de grupos em situação de vulnerabilidade”, cujo objetivo é mobilizar comunidades e ampliar o acesso à informações sobre o zika e seus efeitos na saúde das mulheres com um enfoque em direitos, igualdade de gênero e planejamento voluntário da vida reprodutiva.

A iniciativa prioriza a população mais vulnerável - mulheres em idade reprodutiva, especialmente adolescentes e jovens afrodescendentes de 15 a 29 anos das localidades com maior vulnerabilidade socioambiental e/ou com maior incidência de microcefalia e malformações sugestivas de infecções congênitas por zika de Pernambuco e da Bahia, Estados com maior número de casos confirmados de microcefalia. Inclui ações de campo que serão realizadas em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e 11 organizações da sociedade civil, com recursos do Fundo de Emergência Global do UNFPA, do governo do Japão e do DFID/UK, por meio da ONGCanadem.

Texto e fotos: Tatiana Almeida/UNFPA Brasil