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Presença de profissionais de enfermagem obstétrica na atenção ao parto deve ser reconhecida e fortalecida

Em um bate-papo realizado na última sexta-feira (16), em homenagem ao Dia da Enfermagem Obstétrica, celebrado em 12/04, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) discutiu a importância desses profissionais de saúde no acolhimento e atenção ao parto, na garantia da saúde materna e dos direitos sexuais e reprodutivos. Na ocasião, o Fundo de População da ONU e a Johnson & Johnson lançaram oficialmente o projeto Enlace, uma iniciativa para capacitar e fortalecer enfermeiros e enfermeiras obstétricas e obstetrizes. 

A Oficial para Saúde Sexual e Reprodutiva do Fundo de População da ONU, Anna Cunha, abriu o evento reconhecendo a alta proporção de cesarianas realizadas no Brasil, que corresponde a 56% de todos os partos realizados, o que coloca o país em segundo lugar, atrás apenas para a República Dominicana, conforme estudos internacionais. A recomendação da OMS é de que essa porcentagem seja de até 15%. Neste sentido, conforme a oficial, enfermeiros e enfermeiras obstétricas são chave para uma experiência de parto com menos intervenções cirúrgicas. “Intervenções obstétricas são importantes, mas precisam de razões para acontecer, precisam ter indicação adequada. Precisamos fortalecer a presença de profissionais de enfermagem obstétrica, de equipes multidisciplinares, para garantir não só uma atenção mais qualificada, mas também uma experiência mais acolhedora”, afirmou. 

A  Líder na América Latina para Impacto Comunitário da Johnson e Johnson, Regiane Soccol, que é enfermeira de formação, explicou um pouco da importância do trabalho comunitário feito pela companhia em vários países. “Nós acreditamos que todas as pessoas devem ter acesso a serviços de saúde, e diante desses valores temos a função de fortalecer os sistemas em todas as comunidades onde atuamos”, contou.  O projeto Enlace, realizado pelo Fundo de População das Nações Unidas em parceria com a Johnson & Johnson, prevê ações como um curso de qualificação em direitos humanos para profissionais da área da enfermagem obstétrica e obstetrícia, e uma jornada formativa sobre advocacy e diálogo político, além de ações de comunicação e de promoção de redes. 

“Para mim é uma felicidade falar sobre o lançamento desta parceria, porque viemos trabalhando com o UNFPA em muitos outros países, há muitos anos, justamente nessa linha de valorização e reconhecimento da prática da enfermagem obstétrica através de programas de treinamento e educação. Vamos ter a possibilidade de compartilhar um pouco sobre o que temos feito”, afirmou.

Reconhecimento e valorização

Estiveram presentes no bate-papo as enfermeiras obstétricas Ana Paula Vallerini, referência técnica de Enfermagem e Gestora do Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte; a enfermeira obstétrica da Maternidade do Buenos Aires e da Estratégia Saúde da Família em Teresina Tatiana Melo Guimarães; e o enfermeiro obstétrico do Fundo de População da ONU em Roraima Leandro Morais. Em uma roda de conversa mediada pela jornalista Emília Bizzotto, elas e ele compartilharam um pouco do seu dia a dia e de sua experiência. 

Tatiana Melo falou sobre sua experiência na luta por reconhecimento e mais acesso a serviços. Ela é uma das profissionais à frente da Marcha pela Humanização do Parto, evento tradicional realizado em Teresina que reúne sociedade civil, conselhos de classe, ativistas e outras instituições na mobilização pelos direitos das gestantes, promovendo profundas mudanças e uma verdadeira revolução no atendimento à saúde do Estado. “Já tivemos mulheres que caminhavam 300 km para ter acesso a um parto de qualidade, agora ela pode parir em sua terra”, orgulhou-se.

A enfermeira obstétrica Ana Paula Vallerini, por sua vez, compartilhou sua experiência na gestão do Hospital Sofia Feldman, uma das unidades referências do país na assistência ao parto, que investiu na enfermagem obstétrica como uma forma de aperfeiçoamento da saúde materna. “Nós estamos nos qualificando cada vez mais, trabalhando a gestão, trabalhando para ter conhecimento e reconhecimento por parte dos outros profissionais, mas principalmente pelas mulheres que vão poder dizer: fui atendida por um profissional de enfermagem e isso fez a diferença”, afirmou.

O enfermeiro obstétrico do Fundo de População da ONU em Roraima Leandro Morais encantou com relatos de seu trabalho em campo, em Roraima, onde atua na promoção de saúde sexual e reprodutiva de mulheres migrantes e refugiadas que cruzam a fronteira. “A nossa atuação busca complementar o trabalho com as mulheres e meninas feito na rede de saúde, apoiando essas ações e desenvolvendo também o potencial de liderança comunitária. Nossa atividade desafia a experiência usual da nossa profissão e faz a gente trilhar várias possibilidades de garantir a saúde sexual e reprodutiva das mulheres do estado”, afirmou.

Segundo Leandro, a pandemia impactou no acesso dessas mulheres a atendimentos como consultas ginecológicas, o que pode ser visto na prática pelas equipes do UNFPA. “Vários serviços foram reordenados para atender exclusivamente a emergência da Covid-19. Isso acaba influenciando no acesso das mulheres a contraceptivos, e também há impactos no acesso de gestantes ao pré-natal. Nossas consultas de pré-natal aumentaram bastante, por exemplo. Em breve devemos receber contraceptivos para fornecer planejamento reprodutivo a essas populações”, contou.

Algumas das instituições que prestigiaram o evento foram: Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO) e Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ) - que também apoiam o projeto Enlace - Maternidade do Buenos Aires, Hospital Sofia Feldman, Instituto de Mulheres Negras Luiza Mahin, Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ e Casa Angela - Centro de Parto Humanizado.

Assista ao vídeo do bate-papo aqui: https://www.youtube.com/results?search_query=unfpa+brasil