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Geração sem-sem

12 De setembro de 2018
Arte: Revista Traços

Hoje, no Brasil, de cada quatro pessoas, uma é jovem. Nos últimos anos, a transição da infância para a vida adulta tem sido ainda mais desafiadora. Existem atualmente no Brasil 11 milhões de pessoas com idade entre 16 e 29 anos sem acesso à educação e sem oportunidades de trabalho – os chamados “sem-sem”. São diversas as dificuldades encontradas por jovens para continuarem estudando ou se inserirem no mercado de trabalho: preconceito racial e de gênero, situação de pobreza e vulnerabilidade, falta de estímulo e recursos financeiros para qualificação, ausência de modelos que inspirem essas pessoas a perseverar.

Dos jovens brasileiros que não estudam nem estão no mercado de trabalho, 19% são homens e 32% são mulheres. Quando o recorte é feito por raça, 62,9% são negros e negras, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2017, divulgada em dezembro pelo IBGE.

E, conforme as características se somam, aumenta também a falta de perspectiva da juventude. Uma mulher negra, por exemplo tem 2,3 vezes mais chance de ser sem-sem que um homem branco. A maternidade precoce é um dos fatores que estão associados a essa situação: do total de jovens de 15 a 19 anos sem estudo e sem trabalho, 59,7% já têm pelo menos um filho, sendo que, destas, 69% são negras.

“Esses e essas jovens são a expressão da necessidade de se garantir investimentos e políticas adequadas desde a infância, passando pela adolescência e chegando à vida adulta. É preciso que as políticas públicas adotem uma perspectiva de ciclo de vida. Esse trânsito entre as fases da vida precisa oferecer condições para que os projetos de vida desses e dessas adolescentes se tornem realidade durante a juventude”, explica Jaime Nadal, Representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil.

Investir na Juventude

“Durante a infância e a adolescência, uma série de políticas públicas são necessárias, mas as fundamentais são as de formação de capital humano, mais focadas em saúde e em educação. Na juventude, essas garantias precisam ser complementadas por políticas focadas na empregabilidade e na participação social. Isso significa empoderar jovens para que consigam desenvolver seus projetos de vida, para que alcancem seu pleno potencial. É importante ter uma juventude que enxerga um desenvolvimento social e político”, complementa Jaime Nadal.

Uma solução que pode contribuir com a mudança do cenário é a responsabilização igualitária por parte dos homens com o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, que possibilitaria às mulheres o desenvolvimento de habilidades profissionais. Segundo dados do Banco Mundial, as mulheres hoje em dia são cerca de 40% da força de trabalho no mundo, mas os homens não ocuparam sua parcela na divisão das tarefas domésticas.

Pesquisa da Organização Internacional (OIT) mostra que as mulheres realizam pelo menos duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidado não remunerado que os homens. No Brasil, a pesquisa do IBGE indica que, entre os jovens sem-sem, os afazeres domésticos e a necessidade de cuidar de filhos e outros parentes foram os motivos apontados por 34,6% das jovens por terem deixado de trabalhar ou estudar. O mesmo motivo é apontado por apenas 1,4% os homens jovens.

Outro investimento importante, reforçado no relatório do Banco Mundial “Competências e empregos: uma agenda para a juventude, lançado em março, é na qualidade da educação. Segundo o estudo, em 2015, apenas 38% dos adolescentes estavam na série correta da escola e mais de 13% já haviam parado de estudar. Devido a problemas de aprendizado e dificuldades cognitivas, muitos jovens não conseguem sequer concluir o ensino fundamental. Essas deficiências acabam se acumulando ao longo da juventude e levam não apenas à falta de interesse e à evasão escolar, mas também à falta de qualificação para o mercado de trabalho e a trabalhos com remuneração inferior.

Perspectivas por toda a vida

Para Jaime Nadal, a falta de engajamento da juventude hoje está relacionada à falta de perspectivas, à dificuldade de perceber possibilidades promissoras quanto ao futuro. “Fala-se muito que jovens são o futuro, mas eu ressalto que eles e elas são especialmente o presente. Por isso, se a juventude não tem um horizonte, uma visão de futuro pela frente, ela acaba desengajada. É importante trabalhar os aspectos de empoderamento, engajamento, participação, autonomia e compromisso da juventude com a sociedade”, diz.

“A juventude representa hoje mais de 25% da população brasileira. É um grupo populacional com uma série de necessidades muito particulares de investimento, já que é esse grupo que faz a ponte entre a infância e a vida adulta, entre as pessoas que estão se formando e as que se inserem na vida econômica. Logo, se não forem feitos investimentos nesse grupo que está na juventude, os investimentos feitos na infância serão perdidos”, finaliza Nadal.

O UNFPA trabalha com governos, sociedade civil e setor privado para tentar engajar o maior número possível de atores sociais, econômicos e políticos em ações que permitam assegurar condições para o desenvolvimento pleno do potencial da juventude no país.