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Especialistas discutem formas de enfrentar as relações de dominação e promover a cultura do cuidado

9 Novembro 2020

Evento compõe a programação da Roda das Juventudes Já! que visa criar propostas de prevenção e  enfrentamento das violências de gênero

Por Guilherme Cruz

A Roda das Juventudes Já! tem girado a informação de diferentes formas, seja com oficinas e interações entre as pessoas jovens e adolescentes, mas também com uma interação maior e aberta ao público durante evento online, denominado  “Roda de Diálogos”. O evento realizou a sua segunda edição, na última terça-feira (03), discutindo as formas de enfrentamento das relações de dominação e a busca por uma cultura do cuidado.    

O mapeamento Um vírus e duas guerras aponta que 497 mulheres perderam as vidas, vítimas de feminicídio, entre os meses de março e agosto. E, de acordo com o último boletim da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) ocorreram 151 assassinatos de pessoas trans nos dez primeiros meses de 2020. Os dois levantamentos denunciam uma subnotificação e a dificuldade para acessar dados complementares dessa realidade, com relação à identidade e pertencimento racial e/ou etnico e de  gênero.  

Ao visar esses dados sobre as violências de gênero, durante o debate da Roda de Diálogos, se destacou a masculinidade tóxica e as relações de dominação como elementos que naturalizam essa situação. “A ideia de supremacia masculina organiza a sociedade de tal forma que a socialização dos meninos está intimamente ligada a uma performance de violência. E essa narrativa traz reflexos nos processos de inserção social, na relação com o corpo e grupos sociais”, comentou Gabriela Monteiro, oficial de Assuntos das Juventudes do UNFPA e que realizou a mediação do encontro. 

Luana Silva, Oficial de Gênero, Raça e Etnia do UNFPA enfatizou a interseccionalidade como ferramenta para compreender a cultura do estupro e os marcadores que dialogam nesse contexto. “Na Roda da Juventude Já! tem sido interessante notar a troca de experiências, e ver o grau de empoderamento e construção de ciclos afetivos e de confiança entre os jovens. E isso se torna uma experiência de educação não formal. E quando a gente fala de desconstrução da cultura de violência precisamos falar de todos os envolvidos de maneira interseccional. Por exemplo, quando a gente fala de violência contra mulheres existe um marcador muito forte sobre as mulheres negras”. Em sua fala, Luana Silva também fez referência aos cuidados dentro do ciclo de violência, destacando a campanha Você não está sozinha, do UNFPA em parceria com o SESC. 

A perspectiva de ciclos afetivos e de confiança foi reforçado por Aisha Jacob, do coletivo Não é Não!. “Nós somos um projeto de reeducação e prevenção e,  por isso, queremos criar relações que possam enxergar o outro. E também se reconhecer e se respeitar, a partir do momento que você se entende como pessoa e sua identidade, você vai entender o espaço do outro. Essa será uma maneira de sair do estigma do poder, e entrar num estigma da potência , para potencializar as pessoas a partir da micropolítica”, afirmou.  

“Se torna importante dialogar sobre o lugar de cada identidade, entre as diferenças e diversidades. Para podermos dialogar sobre os poderes que esses sujeitos têm sobre suas escolhas e seus corpos. Nós falamos muito no quanto somos atravessadas pelo machismo, pelo racismo e homofobia, mas a grande batalha é saber como atravessar essas questões e ir para o outro lado, passando por tudo isso, sem negar a existência de ninguém”, disse Luciana Pinto, Coordenadora Nacional da Terre des Hommes Suisse

A Roda das Juventudes Já! atua na perspectiva horizontal e inclusiva, por isso todas as suas ações possuem tradução em libras. No evento foi possível também ouvir o depoimento de Jaqueline Martins, intérprete de libras, cuidadora e ativista. “O número da violência contra mulheres surdas é oculto, quando vamos na delegacia não se especifica que essa pessoa é surda. Por exemplo, não existe 190 para envio de mensagens, a pessoa tem que ligar, então a pessoa surda é violentada duas vezes. Nós fizemos uma pesquisa dentro da associação de surdos em Pernambuco e 89% de mulheres surdas sofreram violência, seja por violência doméstica ou de acessibilidade. O sistema não sabe libras, na delegacia, no acolhimento, nas ONG’s também não sabem e a violência se torna ainda mais forte”. 

A próxima Roda de Diálogos acontece dia 10 de novembro, a partir das 15h30min, com o tema “Diálogos interseccionais: respeitando nossas diferenças por uma sociedade livre de violências”

A Roda das Juventudes Já! é uma realização do UNFPA em parceria com Oxfam Brasil, UNICEF, IYD Brasil, Plan Internacional, Terre des Hommes e Coletivo Não é Não.

Assista a segunda edição da Roda de Diálogos na íntegra:

 

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