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Em um ano de pandemia, Fundo de População da ONU estima que interrupções em serviços levaram a 1,4 milhão de gravidezes não intencionais

12 Março 2021
Problemas na cadeia de suprimentos, restrições de mobilidade e medo sobre procura de serviços de saúde contribuíram para interrupções no planejamento familiar de milhões de mulheres. Na foto, prateleiras vazias em uma loja no Reino Unido no auge da pandemia; a pandemia pode estar afetando as mulheres de maneiras diferentes em países ricos e de baixa renda. © Unsplash/Carlos de Toro.

De acordo com o novo estudo, 12 milhões de mulheres enfrentaram interrupções no acesso à contraceptivos em 115 países, incluindo o Brasil. Estimativa é menor do que a previsão feita anteriormente

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) , a agência de saúde sexual e reprodutiva da ONU, divulgou novos dados indicando que aproximadamente 12 milhões de mulheres em 115 países perderam acesso a serviços de planejamento familiar, levando a 1,4 milhão de gravidezes não intencionais, resultado de interrupções causadas pela Covid-19 ao longo do ano passado. “Gravidezes não param por causa de pandemias, ou de qualquer crise. Nós precisamos assegurar que mulheres e meninas tenham acesso ininterrupto a serviços contraceptivos salvadores de vida e medicamentos de saúde materna”, afirma a diretora-executiva do UNFPA, Dra. Natalia Kanem. “O impacto devastador que a Covid-19 tem tido nas vidas de milhões de mulheres e meninas no ano passado reforça como é vital garantir a continuidade dos serviços de saúde reprodutiva.”

A pandemia da Covid-19 tem sido a crise de saúde global que se espalhou mais rápido em um século, causando uma tensão nunca vista antes nos sistemas de saúde globais, muitos deles forçados a desviar recursos de seus serviços de saúde reprodutiva. Mulheres  também perderam acesso a serviços de saúde devido a restrições ou medo de viajar até unidades de saúde. Os dados, produzidos pelo UNFPA e Avenir Health, estimam o impacto real dessas perturbações na entrega de serviços.

Nos 115 países de renda baixa e média estudados, que incluem o Brasil, mulheres enfrentaram uma interrupção média em seus serviços de planejamento familiar de 3,6 meses ao longo do ano passado, sugerindo que muitos serviços de saúde foram resilientes o suficiente para se adaptar e continuar a fornecer atendimento. As piores interrupções foram largamente concentradas entre abril e maio do ano passado.

Uma pesquisa prévia produzida pelos mesmos parceiros em abril de 2020 havia previsto que três meses de lockdown devido à Covid-19 poderiam levar a algo em torno de 13 a 44 milhões de mulheres perdendo acesso à contracepção, dependendo de quão severa fosse a interrupção causada.

“Apesar das grandes interrupções no acesso ao planejamento familiar, a comunidade internacional uniu esforços para mitigar o pior cenário imaginado”, Kanem prosseguiu. “Desde governos, produtores a provedores de saúde, a cadeia de fornecimento de suprimentos mostrou sua resiliência, e logo se recuperou da falta de estoque que vimos nos primeiros meses da pandemia.”

No começo da pandemia, o Fundo de População da ONU disparou o alarme sobre a ameaça que a Covid-19 representava para a produção e cadeia de fornecimento dos contraceptivos. Como o maior comprador de contraceptivos para países em desenvolvimento, UNFPA trabalhou com seus parceiros, desde governos, sociedade civil ao setor privado, e tomou medidas imediatas para mitigar seu impacto. UNFPA assegurou financiamento para governos, adicionou mais fornecedores à sua lista e monitorou de perto os níveis de estoque global, transferindo estoque excedente para países com necessidades urgentes, entre outras medidas. E, como resultado desse compromisso compartilhado e da ação rápida, a interrupção no acesso ao planejamento familiar foi menos grave do que poderia ter sido.

As projeções usam várias bases de dados, incluindo dados anônimos e agregados do Google Mobility, indicando aproximadamente a capacidade das pessoas de visitar mercados, farmácias e de receber outros bens e serviços essenciais. Os pesquisadores também tiveram acesso a uma pesquisa de coleta de dados dos escritórios de países do UNFPA e seus parceiros, e levou em conta alguns indicadores de crescimentos do uso de contraceptivos que cresceram em 2020, apesar dos impactos da Covid-19. As projeções apresentam três cenários, mostrando variações da severidade das interrupções nos serviços, os números reportados aqui refletem uma estimativa média.

Caso brasileiro

De acordo com a representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, Astrid Bant, no caso do Brasil a principal preocupação em relação ao impacto no acesso a serviços de saúde reprodutiva tem sido em regiões afastadas, de difícil acesso, localizadas no Norte e o Nordeste do país. “Durante crises de saúde e crises humanitárias, são as pessoas em situação de maior vulnerabilidade que enfrentam possíveis rupturas em seu acesso a serviços. E é preciso lembrar que o acesso a contraceptivos, assim como atendimento em saúde reprodutiva, é um direito humano, e temos trabalhado para garanti-lo”, afirma.

No ano passado, por exemplo, o UNFPA Brasil desenvolveu um projeto na Ilha de Marajó, no Pará, justamente para mitigar os efeitos da pandemia na saúde sexual e reprodutiva de mulheres e meninas. O projeto, batizado de Saúde das Manas, foi desenvolvido em parceria com o Conselho de Secretarias Municipais do Pará (Cosems-PA) e abrange desde a disponibilização de teleconsulta com ginecologistas e obstetras, por meio de doação de equipamentos e internet, a ações de comunicação comunitária informando sobre métodos contraceptivos e questões de saúde. Ainda neste ano, o projeto prevê também a entrega de contraceptivos em residências cadastradas, nas cidades do arquipélago, que tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil.

 

Leia o relatório completo, em inglês, aqui: https://www.unfpa.org/resources/impact-covid-19-family-planning-what-we-know-one-year-pandemic

Este texto é uma tradução. Confira o original aqui: https://www.unfpa.org/press/new-unfpa-data-reveals-nearly-12-million-women-lost-access-contraception-due-disruptions