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Construindo uma sociedade mais justa com melhores oportunidades para a juventude negra

4 Fevereiro 2021
Aos 21 anos Matheus Valois é uma das lideranças da juventude negra no Brasil. © UNFPA Brasil

O projeto implementado no Brasil com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), fortalece as capacidades de jovens líderes e proporciona conhecimentos, experiências e boas práticas das juventudes negras no país

MARANHÃO, Brasil - Nove anos se passaram desde que Matheus Valois demonstrou ser um jovem líder ativista que se formou no movimento escoteiro no estado do Maranhão. Aos 12 anos, ele entendeu que sua liderança social era o caminho para cumprir sua missão: construir um mundo melhor para a população negra do país.

Quando adolescente, aprendeu com o trabalho de outras organizações da sociedade civil. Sua passagem alternativa pelo movimento estudantil da escola e pela Pastoral Juvenil de sua igreja, motivou seu interesse em aprender e incorporar em seus conhecimentos, ferramentas para o desenvolvimento de ações onde crianças e jovens de sua comunidade tivessem oportunidades de atingir seu máximo potencial.

Hoje, aos 21 anos, é um estudante de relações internacionais que, motivado pelo sentimento de assumir desafios ainda mais importantes, trabalha pelo reconhecimento da população negra. Participando do “Redes & Raizes”, projeto liderado pelo Fundo de População das Nações Unidas - Escritório Regional para a América Latina e o Caribe, UNFPA Brasil, e o Observatório Juvenil de Saúde e Direitos, ele fortaleceu suas capacidades de advocacy político e de direitos da juventude negra.

“Quero assumir novas lideranças em cenários nacionais e internacionais que me permitam lutar por uma sociedade mais igualitária. Quero pensar e discutir políticas públicas efetivas de combate ao racismo, quero que a sociedade civil negra se organize, tenha mais participação e seja ouvida ”, explica Valois. 

Sua participação no projeto incluiu a seleção e a formação de jovens líderes negros e negras do Brasil; mapeamento das organizações juvenis que atuam na prevenção da Covid-19; capacitação de integrantes do observatório e a preparação de materiais informativos sobre ancestralidade.


Logomarca do projeto Redes & Raízes © UNFPA Brasil

Formação de líderes com pensamento crítico

O projeto “Redes & Raizes” - formulado para fortalecer a juventude negra - foi um desafio para Matheus. Alcançar o que se propõe - além de aplicar um manual de indicações de como ser um líder - é dar uma resposta urgente ao fortalecimento de jovens que, como ele, procuram adquirir ferramentas teóricas para aplicar o seu pensamento crítico, a sua capacidade de articulação, e sobretudo, a própria defesa para garantir os direitos da população negra no Brasil.

“Acredito que todos nós temos potencial para alcançar o que nos propusemos. Precisamos apenas das ferramentas adequadas para fazer uso de todo esse potencial. Precisamos lutar por uma sociedade onde todos tenham oportunidades e onde somente o nosso próprio esforço seja o limite para alcançá-las”, disse Matheus Valois. E acrescentou: “os jovens afrodescendentes que fazem parte da iniciativa, buscam adquirir conhecimento para garantir que os membros de sua comunidade tenham o direito de viver com dignidade e ter acesso à educação, saúde e serviços básicos. Trabalhar com jovens de diferentes origens em associação com o Fundo de População das Nações Unidas me fez refletir sobre minha ancestralidade, meu lugar de fala, refletir sobre meus privilégios e perceber que podemos dialogar de forma interseccional para a construção de uma sociedade mais justa. "

O projeto responde a processos de capacitação, formação de lideranças, pesquisas sobre redes juvenis negras e ações de comunicação, e também, em sua perspectiva mais ampla, busca que mais jovens estejam em espaços onde sua voz seja escutada, “temos que falar, temos que ocupar esses espaços de poder e acreditar 100% em nós mesmos, porque temos que iniciar as mudanças que nossa sociedade precisa”, acrescenta Matheus.

Para Gabriela Monteiro, Oficial de Juventudes do UNFPA Brasil e responsável pelo Projeto Redes & Raízes, “atualmente o projeto conta com a participação de nove jovens líderes do Brasil, com diferentes formações, mas com o denominador comum: uma participação anterior no ativismo a favor dos direitos humanos. Porém, muitas vezes, eles e elas tiveram dificuldade de acessar as informações para fortalecer suas habilidades ”.


Tatiane Anjos, líder negra. © UNFPA Brasil

Sobre esse fortalecimento de competências, Tatiane Anjos, uma das jovens lideranças que integram o projeto, garante que isso lhes dá a possibilidade de “estabelecer um maior diálogo com os governos e maior vigilância das políticas públicas para nossas comunidades. É preciso atrair mais jovens negros para que saibam que possuem direitos”.

Observatório da Juventude para a Saúde e os Direitos

Segundo o relatório “Juventud afrodescendiente en América Latina: realidades diversas y derechos (in)cumplidos” do UNFPA, o Brasil é o país com maior número de jovens negros e negras  na América Latina e no Caribe, tendo ao total 22 milhões de jovens.

Parte dos esforços apoiados pela organização para enfrentar as desigualdades e seus efeitos sobre estes jovens no Brasil, foi criado em 2019 o Observatório da Juventude sobre Saúde e Direitos, que conta com a participação de lideranças juvenis de diversas entidades que atuam nas áreas de gênero, raça e etnia, HIV, pessoas com deficiência e participação política.

Essa iniciativa, que tem por objetivo monitorar o cumprimento dos objetivos estabelecidos na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) no Brasil, é uma das garantes do projeto Redes & Raízes. O Observatório surgiu de um workshop realizado no final de 2019 entre o UNFPA e várias organizações da sociedade civil que trabalham com a juventude para discutir o 25º aniversário do Cairo. 

“Todas as ações desenhadas neste projeto foram apoiadas pelo Observatório, que é formado por vários jovens. Um dos objetivos do projeto é aprimorar as habilidades de vida desses jovens. As expectativas do Observatório estão voltadas para um maior diálogo com os governos, uma forte ação de promoção para que as comunidades afro-brasileiras tenham mais espaço e uma maior presença de líderes e que as organizações se tornem agentes multiplicadores de lideranças”, explica Gabriela Monteiro.


UNFPA trabalha com juventude negra na América Latina e Caribe. © UNFPA Brasil

O UNFPA e a juventude negra

Assim como o Projeto Redes & Raízes, atualmente o UNFPA América Latina e Caribe apóia ações em outros países da região - Argentina, Brasil, Colômbia, Peru, República Dominicana, Uruguai, Suriname e Equador - para o desenvolvimento da juventude negra.

Essas ações representam uma oportunidade para reduzir e erradicar as brechas da desigualdade e do racismo estrutural que têm limitado essa população ao exercício pleno de seus direitos, como parte da estratégia regional de NÃO Deixar Ninguém Para Trás do UNFPA América Latina e Caribe, que contribui para a Agenda 2030 rumo ao caminho para o desenvolvimento sustentável.