Você está aqui

“Nós diminuímos a dor do outro”, diz presidente de ONG que conecta produtores de alimentos a quem tem fome em Pernambuco

Mesmo debaixo da chuva que caía, no fim de semana de 10 de abril, membros da Associação da Juventude Camponesa Nordestina Terra Livre (AJCN) cortavam o mar em um pequeno barco, carregando sacos de alimentos com verduras e frutas, rumo às palafitas localizadas na periferia de Recife, em Pernambuco. No local, centenas de pessoas sofrem os impactos da pandemia da Covid-19. “É uma realidade dura. Chegam a morar três pessoas em cubículos de sete metros quadrados. A fome está aumentando demais e o termômetro é o aumento de palafitas”, explica o presidente da AJCN, Paulo Manfan.

Distribuir alimentos é apenas uma das ações às quais a entidade tem se dedicado durante a pandemia, em parceria com várias outras organizações, por meio da campanha Mãos Solidárias. A Associação da Juventude Camponesa Nordestina Terra Livre foi criada em 2008 com o objetivo de garantir melhores condições de vida e trabalho aos agricultores e agricultoras, especialmente jovens, com apoio da Pastoral da Juventude Rural. A instituição é uma das selecionadas pelo primeiro edital Nas Trilhas de Cairo, que busca fortalecer organizações da sociedade civil com atuação chave para os objetivos do Fundo de População da ONU no país.

Com um trabalho em rede, conectada aos diversos Grupos de Produção e Resistência que cultivam a terra ao longo de todo o Nordeste, a Associação tem lutado para levar alimentos, educação, informação e acesso a direitos a comunidades inteiras em Pernambuco. Por meio da campanha Mãos Solidárias, conforme relata Paulo Manfan, já foram entregues mais de 500 mil marmitas desde o ano passado. Na pandemia, a organização conecta produtores de comida àqueles que têm fome. 

A AJCN também trabalha com a promoção da saúde, capacitando lideranças comunitárias para serem Agentes Populares de Saúde, fornecendo informações sobre enfrentamento e prevenção à Covid-19. Outro foco do trabalho é a educação, com voluntários oferecendo apoio a estudantes, que vão de doação de equipamentos a aulas de reforço. “Nós percebemos como os jovens estão sendo afetados, principalmente na área rural. Quando tem aula online, há muitas dificuldades de acesso, porque os pacotes de dados móveis de internet se esgotam rápido. A defasagem escolar é grande e está sendo muito difícil”, afirma o presidente da Associação.

Por meio do edital Nas Trilhas de Cairo, focado em dar condições para que as organizações da sociedade civil prosperem e para que tenham a capacidade de atuação e advocacy político fortalecida, a AJCN recebeu um recurso de R$ 56 mil, que implementará aprimorando suas estratégias de comunicação. O objetivo é construir um site, dar visibilidade às ações e mostrar o que fazem, inclusive com a contratação de jornalistas, de forma a conseguir difundir suas atividades.

“Este edital foi uma luva para a mão. Normalmente, nós conseguimos auxílio para fazer ações pontuais. Este projeto, sem rodeios, ofereceu ajuda para que possamos sobreviver e nos fortalecer. Como somos uma entidade jovem, temos muita dificuldade de nos manter porque a juventude, normalmente, não tem renda. Até então era tudo voluntário. Agora pretendemos contratar uma pessoa para nos ajudar a dar visibilidade. Estamos nos profissionalizando”, orgulha-se Paulo.

Para o presidente, o período de pandemia tem sido especialmente desafiador. “Às vezes precisamos de ajuda em relação à saúde mental. É uma dor muito grande estar ali, vendo as pessoas sofrerem. A gente absorve essa dor”, explica. “Ao mesmo tempo, é uma grande realização. Apesar de não resolver o problema, nós diminuímos a dor do outro. Isso nos humaniza. Sabemos que estamos no caminho certo.”