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“É muito difícil pessoas e a população negra experimentarem liberdades ou direitos. Mas temos avançado”

11 Julho 2019
Jurema Werneck é diretora executiva da Anistia Internacional (Foto: Divulgação/Anistia Internacional)

Jurema Werneck é doutora em Comunicação e Cultura e graduada em Medicina. Diretora executiva da Anistia Internacional e ativista de direitos humanos. Como membro do Conselho Consultivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA),  foi convidada, neste Dia Mundial da População, a refletir sobre as questões ainda abertas dos compromissos firmados na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo em 1994. 

A ação "Mais que minha mãe, menos que minha filha" busca responder essas questões e celebra os 25 anos da CIPD e representou uma mudança de paradigma na forma como os direitos reprodutivos passaram a ser abordados. Na ocasião, mais de 170 países adotaram um plano de ação inovador que passou a orientar as políticas públicas a partir do prisma dos direitos humanos, das escolhas individuais e do empoderamento feminino.

Em seu contexto, quais as oportunidades de trabalho, educação, renda você percebe que sua mãe não teve e você tem? Por quê?

O acesso a quaisquer oportunidades de desenvolvimento, de qualquer espécie, num país em que o racismo patriarcal heteronormativo, como Brasil, é mediado por sua raça/cor, identidade de gênero, classe social, região geográfica onde nasceu ou vive, etc. Isto significa dizer que não existem oportunidades disponíveis, mas conquistas a serem alcançadas a partir do esforço de muitas e muitos, às vezes, de comunidades inteiras. Convivi com várias gerações de mulheres negras da minha família (bisavó, avós, mãe e tias, primas, sobrinhas). Nunca houve oportunidades, mas conquistas - e as gerações mais novas sempre usufruíram mais do que as anteriores. Entre todas, as mais novas e as mais velhas, sou a que teve acesso a mais espaços e possibilidades, a partir das conquistas feitas.

Seus filhos e filhas, caso tenha ou pretenda ter, podem ter oportunidades ainda melhores que as suas? 

Não tenho filhos. Tenho sobrinhos e sobrinhas. Em termos materiais, de acesso a informação e possibilidades de desenvolvimento, eles e elas têm muito mais acesso do que minha a geração e as anteriores.

O que você deseja para os seus sobrinhos e sobrinhas?

Quero que o racismo patriarcal heteronormativo não tenha um impacto tão devastador na vida deles e delas como teve na vidas de todas e todos nós que viemos antes. Que tenham mais chances, que encontrem mais portas abertas e menos violência e menos desafios e barreiras materiais e simbólicas.

Acha que seus sobrinhos e sobrinhas têm mais liberdades e direitos?

Em uma sociedade desigual, com forte presença do racismo patriarcal heteronormativo , é muito difícil pessoas e a população negra experimentarem liberdades ou direitos. Mas temos avançado nas lutas para ampliar os espaços e liberdades (que seguem ameaçados!)

Sobre prevenção e métodos contraceptivos, você costuma utilizar algum? Isso já faz parte da sua cultura?

Faz parte das lutas por direitos e saúde das mulheres. Mas não vivi a necessidade de usá-lo, devido à minha orientação sexual.

Acha que a geração da sua mãe era diferente da sua no acesso aos métodos de contracepção? Quais os principais motivos para isso?

Sim. Não havia políticas públicas para isto. Hoje há, ainda que enfrentem muitas barreiras.