Neste 5 de maio, Dia Internacional da Parteira/Obstetriz, histórias de mulheres que acompanham o nascimento mostram como o Brasil avançou na saúde materna — e por que investir nessas profissionais é chave para seguir avançando.
O Brasil reduziu de forma significativa a mortalidade materna nas últimas décadas. Em 1990, eram 104 mortes por 100 mil nascidos vivos. Em 2024, esse índice já havia caído para 59,7, abaixo da meta global dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas ainda distante da meta nacional adotada pelo país, de 30 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos até 2030.
Avanços foram realizados em investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), na ampliação do pré-natal e em políticas públicas voltadas à saúde materna. Um caminho que vem ganhando força é o do cuidado liderado por obstetrizes e enfermeiras obstétricas.
Internacionalmente, esse campo é conhecido como midwifery, e as profissionais são chamadas de midwives, termo que se refere a quem acompanha a mulher ao longo da gestação, do parto e do pós-parto, com cuidado contínuo e baseado em evidências.
No Brasil, essas profissionais têm formações diferentes: a obstetriz tem formação direta na área, enquanto a enfermeira obstétrica se especializa após a graduação em enfermagem. Ambas têm competências equivalentes no cuidado ao parto de risco habitual.
Elas atuam com o mesmo princípio: acompanhar a gestação, o parto e o pós-parto com base em evidências, garantindo cuidado contínuo, próximo e centrado na mulher. Parteiras tradicionais também integram esse modelo, especialmente em comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, onde o acesso aos serviços de saúde é mais limitado.
Segundo estudo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), essas profissionais podem prover cerca de 90% dos cuidados essenciais em saúde materna e neonatal. Ampliar sua presença é uma das estratégias mais eficazes (e custo-efetivas) para melhorar resultados e fortalecer o sistema de saúde.
Entre ciência, experiência e escolha
A obstetriz Andrêza Trajano viu esse modelo funcionar em diferentes partes do mundo. Natural de Roraima, ela descobriu a profissão ao se mudar para São Paulo e integrar a primeira turma de obstetrizes da USP, em 2004. Depois de formada, ela construiu uma trajetória em que passou por hospitais, casas de parto, comunidades indígenas na Amazônia e, desde 2015, por missões humanitárias em países como Etiópia e Sudão.
Foi nesse percurso que passou a comparar modelos de atenção ao parto, e a questionar o predomínio de uma abordagem centrada no hospital. “Em outros países, o pré-natal e o parto de risco habitual são acompanhados por parteiras, com integração ao sistema de saúde”, afirma.
Andrêza explica que no modelo predominante no Brasil, o acompanhamento costuma alternar entre consultas com enfermeiros e médicos, com encaminhamento para maternidades quando necessário. A presença das parteiras profissionais ao longo de todo o processo (especialmente no pré-natal) é limitada, o que dificulta a construção de vínculo e continuidade do cuidado.
Em contextos com menos recursos, ela viu como o cuidado baseado em vínculo e em práticas essenciais, pode salvar vidas. Já nas comunidades indígenas, encontrou modelos que integram saberes tradicionais e atenção à saúde. “Esses saberes, transmitidos entre gerações, seguem sendo fundamentais em territórios onde o acesso ao sistema de saúde é limitado, embora ainda enfrentam desafios de reconhecimento institucional”, explica.
A experiência de Andrêza sustenta sua defesa por uma reforma obstétrica no Brasil: uma reorganização do cuidado a partir das evidências e do protagonismo das gestantes. “Cuidar do parto é cuidar de um processo, não de uma doença. Quando a gente organiza o sistema dessa forma, os resultados são melhores”, resume.
Essa visão é compartilhada por Luciane d’Ávila, presidente da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo), que atua na articulação para fortalecer esses profissionais no sistema de saúde.
Para ela, o diferencial está no cuidado contínuo: do pré-natal ao pós-parto, e na atenção não apenas aos aspectos clínicos, mas também emocionais e sociais. Esse modelo permite identificar precocemente riscos, oferecer mais informação às gestantes e reduzir intervenções desnecessárias, especialmente em casos de gravidez de risco habitual.
Luciane explica que se trata de uma condição de cuidado: “é garantir que a mulher esteja no centro das decisões, com respeito às suas escolhas, baseadas em evidências científicas, independentemente de o parto ser vaginal ou cesáreo”.
“Fortalecer esses profissionais é fortalecer o próprio sistema de saúde”, afirma. Nos últimos anos, políticas como a Rede Cegonha e a Rede Alyne ajudaram a ampliar o acesso ao pré-natal, incentivar boas práticas e fortalecer centros de parto normal.
Ainda assim, “o país enfrenta desafios para reduzir de forma consistente a mortalidade materna, o que reforça a necessidade de ampliar a formação desses profissionais e sua inserção na atenção primária à saúde”, defende Luciane.
Cuidado que se vive, e que se transmite
Em Boa Vista, a enfermeira obstétrica Andressa Menescal Coelho viveu esse modelo também como paciente. Acompanhada durante toda a gestação por uma equipe com quem já trabalhava, teve seu filho em casa, em um parto pélvico, situação que frequentemente leva à cesariana no modelo tradicional.
“Durante todo o processo, eu me senti muito acolhida e cuidada. Na hora do parto, eu não era a profissional, eu era a mulher parindo”, relata. A experiência traduz o que essas profissionais defendem: vínculo, confiança e participação ativa da mulher nas decisões.
Em outra realidade, na comunidade de Bacuri, no Amazonas, Ranega Marques aprendeu o ofício com a avó, parteira tradicional, e hoje atua no fortalecimento dessas mulheres em comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas.
Durante a pandemia, ela acompanhou o parto de gêmeos, de uma gestante que vivia em uma comunidade isolada. A mãe, contaminada com COVID-19, faleceu antes de chegar ao hospital, mas, com apoio das parteiras da comunidade de Ranega, que ficava no caminho para o atendimento médico, os bebês sobreviveram. “Foi muito difícil, mas mostrou a importância das parteiras onde o acesso à saúde é limitado”, conta.
Para ela, o maior desafio ainda é o reconhecimento. “Muitas vezes, esse conhecimento não é respeitado fora das comunidades. Por isso, trabalhamos para mostrar que ele é eficaz e essencial.”
O Brasil já demonstrou que é possível avançar na redução da mortalidade materna. Ampliar o papel de obstetrizes, enfermeiras obstétricas e parteiras é um próximo passo natural nesse caminho.
As histórias de Andreza, Luciane, Andressa e Ranega mostram que esse modelo já existe e funciona. Precisamos garantir que cada vez mais mulheres possam viver o parto com segurança, respeito, dignidade, e que o sistema de saúde avance para um modelo mais equitativo, eficiente e centrado nas pessoas.
