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Ativista quebra tabus sobre planejamento familiar nas Maldivas

8 Janeiro 2019
Quando sua amiga ficou grávida inesperadamente, ainda bem jovem, Azlifa buscou um jeito de compartilhar informações sobre saúde sexual e reprodutiva com outros jovens. Foto: UNFPA Maldivas/Tatiana Almeida

Quando Azlifa tinha 11 anos de idade, sua amiga viveu um momento perturbador.

“Ela saiu da escola”, lembra Azlifa. “A família dela estava muito zangada. Todo mundo na ilha — era uma comunidade bem pequena — fofocava sobre ela, mas ninguém mencionava o namorado.”

O namorado, Azlifa logo ficou sabendo, estava para se tornar o pai do bebê de sua amiga. Mas na época, Azlifa não sabia nada sobre saúde sexual ou reprodutiva. Ela teve de dar um Google na palavra “menstruação” quando ouviu pela primeira vez.

Em um país onde o sexo fora do casamento é criminalizado, Azlifa não era muito diferente de outras meninas da sua idade.

Nas Maldivas, o casamento continua sendo uma exigência para o acesso a serviços de planejamento familiar, e são escassas as informações sobre saúde sexual e reprodutiva voltadas para os jovens.

Mas Azlifa estava determinada a mudar isso.

“A história da minha amiga me inspirou a empoderar outras meninas”, disse a maldívia em entrevista ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “Eu não queria que nenhum dos meus parentes passasse pelo que ela passou.”

Hoje com 26 anos, Azlifa trabalha como educadora de saúde reprodutiva para a Society for Health Education (SHE), uma organização apoiada pela agência da ONU. A SHE é a única instituição no país asiático que provê informação e serviços de saúde sexual e reprodutiva para a juventude.

“Quando se trata de prevenir gestações indesejadas, a informação é fundamental”, diz Azlifa.


Jovens em espaço apoiado pelo UNFPA utilizam aplicativo que divulga informações sobre saúde sexual e reprodutiva. Foto: UNFPA Maldivas/Tatiana Almeida

Em todo o mundo, os adolescentes e os jovens ficam para trás no acesso ao planejamento familiar e a informações e serviços de saúde sexual e reprodutiva. Apenas nos países em desenvolvimento, 20 mil meninas com menos de 18 anos dão à luz todos os dias — o que representa 7,3 milhões de nascimentos por ano.

A gravidez na adolescência coloca as meninas em risco de abandonar a escola e enfrentar perspectivas de emprego reduzidas. Também as torna vulneráveis à pobreza, exclusão e problemas de saúde. Complicações da gravidez e do parto são a principal causa de morte entre as meninas adolescentes em todo o mundo.

Além disso, a gravidez na adolescência geralmente não é o resultado de uma escolha deliberada — muitas meninas em todo o planeta têm pouca influência sobre as decisões que afetam suas vidas. Ter um filho quando adolescente é, com frequência, o resultado da falta de acesso à escola, informação ou cuidados de saúde.

“Minha amiga nunca teria se tornado uma mãe adolescente se tivesse tido acesso a informação de saúde sexual e reprodutiva”, explica Azlifa. “Na SHE, oferecemos serviços como planejamento familiar, prevenção do HIV e de IST (infecções sexualmente transmissíveis), atenção pré-natal e educação abrangente sobre sexualidade.”

A próxima geração de líderes

Os jovens desempenham um papel crítico na educação uns dos outros e na promoção de ambientes seguros para discutir tópicos que são normalmente considerados um tabu. A avaliação é de líderes mundiais que se reuniram em novembro último em Kigali, Ruanda, para a Conferência Internacional de 2018 sobre Planejamento Familiar. Uma vez que constituem a próxima geração de campeões do planejamento familiar, os jovens têm de ser incluídos nas decisões que os afetam da forma mais íntima.

Azlifa sabe disso muito bem. “Estou muito orgulhosa em criar e oferecer encontros em espaços seguros para os jovens, onde eles podem vir e conversar sobre essas questões.”

Em colaboração com o UNFPA, a SHE promove locais seguros para que os jovens possam questionar tabus e explorar temas sensíveis sobre sexo e relacionamentos. Num momento em que problemas de inclusão persistem nas Maldivas, com o alto desemprego entre a juventude e a baixa participação das mulheres na força de trabalho, os espaços seguros também empoderam as mulheres e meninas, enfatizando soluções baseadas em direitos e na igualdade de gênero.

Apenas em 2018, o fundo da ONU e a instituição organizaram seis novos espaços seguros para a juventude. A parceria deu origem recentemente à um aplicativo de celular, que visa a expandir o alcance dos serviços de saúde sexual e reprodutiva para os jovens de todo o país.

Azlifa continua otimista e acredita que esses esforços farão a diferença para as próximas gerações

“Eu me casei há quatro anos, mas só agora eu decidi ter meu primeiro filho”, conta. “Eu espero que a geração da minha filha tenha mais facilidade quando se trata de acessar os direitos de saúde reprodutiva.”

Fonte: ONU Brasil